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19 de out

Dor ao sentar que melhora em pé: o que é a neuralgia do pudendo

Capa do artigo: Dor ao sentar que melhora em pé, o que é a neuralgia do pudendo

Dor na vulva, no períneo ou perto do ânus que piora quando você senta e alivia quando fica em pé, ou ao sentar no vaso sanitário. Queimação, choque, pontada ou a sensação de um “corpo estranho” no local. Exames que voltam normais e a frase que muitas pacientes já ouviram: “não há nada de errado”.

Esse conjunto de sintomas pode ter origem em um nervo: o nervo pudendo. A dor é real, mesmo quando os exames não mostram a causa. Neste texto, explico o que é a neuralgia do pudendo, como ela é diagnosticada e quais são as opções de tratamento, com base na literatura científica.

O que é o nervo pudendo

O nervo pudendo nasce das raízes sacrais (S2 a S4), no fundo da pelve, e leva sensibilidade à vulva, ao períneo e à região anal. Ele também participa do controle dos músculos que ajudam a segurar a urina e as fezes. No caminho, passa por espaços estreitos entre ligamentos e por um túnel chamado canal de Alcock. É nesses pontos que ele pode ser comprimido.

Uma revisão recente mostrou que o trajeto e as ramificações desse nervo variam bastante de uma pessoa para outra, o que ajuda a explicar por que os sintomas e a resposta ao tratamento também variam (Yang et al., 2026).

O que é a neuralgia do pudendo

É uma dor de origem nervosa (dor neuropática) no território do nervo pudendo. A causa mais estudada é o aprisionamento do nervo, como numa síndrome de túnel, semelhante ao que acontece no punho com o nervo mediano. Também pode estar associada a cirurgias pélvicas, partos, quedas ou outras condições que lesam ou comprimem o nervo.

Sintomas mais comuns

  • Dor em queimação, choque, pontada ou formigamento na vulva, no períneo ou na região anal.
  • Dor que piora sentada e melhora em pé, deitada ou sentada no vaso sanitário.
  • Sensação de corpo estranho na vagina ou no reto.
  • Dor que costuma aumentar ao longo do dia e, em geral, não acorda a pessoa à noite.
  • Em alguns casos, desconforto para urinar, evacuar ou na relação sexual.

Por que o diagnóstico costuma demorar

Os sintomas se parecem com os de infecções, vulvodínia, problemas de coluna ou doenças do intestino. Além disso, ultrassom e ressonância comuns frequentemente são normais, porque o nervo comprimido nem sempre aparece nesses exames. Por isso, muitas pacientes passam por vários médicos antes de alguém pensar no nervo.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico: depende de uma boa história e de um exame cuidadoso. O padrão mais usado no mundo são os critérios de Nantes, definidos por um grupo de especialistas franceses (Labat et al., 2008). São cinco critérios essenciais:

  1. Dor no território do nervo pudendo (do ânus ao clitóris).
  2. Dor que piora na posição sentada.
  3. A dor não acorda a paciente à noite.
  4. Não há perda objetiva de sensibilidade no exame.
  5. Melhora da dor após um bloqueio anestésico do nervo pudendo.

Exames como a ressonância magnética e a neurografia por ressonância (uma técnica que mostra melhor os nervos) servem para afastar outras causas e, em alguns casos, apoiar o diagnóstico (Garcia-Diez et al., 2025). Uma revisão sistemática recente reforça que esses exames são complementares: a avaliação clínica e o bloqueio continuam sendo a base (Ahmed et al., 2026).

Tratamento, passo a passo

O tratamento segue uma escada: começa pelas medidas mais simples e só avança quando elas não bastam.

  • Medidas conservadoras: ajustes na forma de sentar e almofadas que aliviam a pressão no períneo, fisioterapia pélvica e medicamentos próprios para dor de origem nervosa.
  • Bloqueios do nervo: além de ajudarem a confirmar o diagnóstico, podem aliviar a dor por períodos variáveis.
  • Técnicas de modulação do nervo: radiofrequência pulsada e neuroestimulação são opções para casos que não respondem às etapas anteriores. Os resultados iniciais são promissores, mas a duração do efeito a longo prazo ainda é incerta (Ahmed et al., 2026).
  • Cirurgia de descompressão: libera o nervo nos pontos em que ele está preso. É reservada a casos selecionados, que não melhoraram com as etapas anteriores.

O principal estudo randomizado sobre a cirurgia comparou 32 pacientes com dor crônica que não haviam melhorado com analgésicos e bloqueios. Aos 3 meses, 50% das operadas relataram melhora, contra 6,2% das que não foram operadas. Aos 12 meses, a melhora foi de 71,4% contra 13,3% entre as que seguiram o tratamento proposto (Robert et al., 2005). É um estudo pequeno, e a própria revisão sistemática aponta a falta de estudos comparativos maiores. Por isso, a indicação cirúrgica deve ser individual e cuidadosa.

Onde entra a neuropelveologia

A neuropelveologia é uma área de estudo dedicada aos nervos da pelve. Ela não é uma nova especialidade, e sim uma competência que reúne ginecologia, urologia, neurologia, cirurgia, medicina da dor e reabilitação (Possover et al., 2026). Na prática, isso significa olhar para a pelve como um todo: outras condições, como a endometriose que atinge nervos ou compressões causadas por vasos, podem produzir sintomas parecidos com os da neuralgia do pudendo e precisam ser consideradas.

Quando procurar avaliação

  • A dor na região genital ou anal dura mais de três meses.
  • Ficar sentada se tornou difícil no trabalho, no carro ou em casa.
  • Os exames são normais e os tratamentos para infecção não resolveram.
  • A dor começou ou mudou depois de um parto ou de uma cirurgia pélvica.

Perguntas frequentes

Neuralgia do pudendo tem cura?
Muitas pacientes melhoram de forma importante com o tratamento conservador e com bloqueios. Os casos que não respondem têm outras opções, incluindo a cirurgia. A resposta varia de pessoa para pessoa, e o objetivo é recuperar a qualidade de vida.

Ressonância normal descarta o problema?
Não. O diagnóstico é principalmente clínico, e a imagem comum muitas vezes não mostra o nervo comprimido.

Homens também podem ter?
Sim. A condição também ocorre em homens.

Quer conversar sobre o seu caso?

A consulta é particular e começa antes do encontro: a clínica envia um formulário sobre a dor e pede seus exames anteriores, para que o caso seja analisado com antecedência. No consultório, há exame dos nervos e músculos da pelve e a decisão sobre o tratamento é tomada em conjunto.

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Sobre o autor. Dr. Henrique Mendonça Abrão · Médico ginecologista e obstetra · CRM-SP 192.178 · RQE 91.476. Formação em neuropelveologia pela International Society of Neuropelveology (ISON), com fellowship no Possover International Medical Center, em Zurique; fellowship em cirurgia minimamente invasiva e mestrado em Clermont-Ferrand, França.

Referências

  1. Labat JJ, Riant T, Robert R, Amarenco G, Lefaucheur JP, Rigaud J. Diagnostic criteria for pudendal neuralgia by pudendal nerve entrapment (Nantes criteria). Neurourol Urodyn. 2008;27(4):306-10. doi:10.1002/nau.20505
  2. Robert R, Labat JJ, Bensignor M, et al. Decompression and transposition of the pudendal nerve in pudendal neuralgia: a randomized controlled trial and long-term evaluation. Eur Urol. 2005;47(3):403-8. doi:10.1016/j.eururo.2004.09.003
  3. Ahmed M, Zavridis P, Hadjiconstanti D, Zis P. The diagnosis and management of pudendal neuralgia. Pain Ther. 2026;15(1):97-129. doi:10.1007/s40122-025-00803-w
  4. Yang J, Webb KE, Carrington EV, et al. Anatomical variation of the pudendal nerve and related structures. Eur Urol Open Sci. 2026;85:71-81. doi:10.1016/j.euros.2026.01.015
  5. Garcia-Diez AI, Marques LQ, Lugo N, et al. Imaging diagnosis of pelvic nerve syndromes. Magn Reson Imaging Clin N Am. 2025;33(3):515-27. doi:10.1016/j.mric.2025.03.008
  6. Possover M, Fazel A, Meinhold-Heerlein I, et al. Neuropelveology: the missing competency in pelvic surgery. J Minim Invasive Gynecol. 2026. doi:10.1016/j.jmig.2026.07.002

Conteúdo educativo, revisado em outubro de 2026. Não substitui a avaliação médica individual.